05/01/2021 às 10:33 - Atualizado em 05/01/2021 às 10:36

Comércio baiano deve ter, em 2020, o pior resultado dos últimos 10 anos, calcula Fecomércio-BA

Entidade faz o balanço do comércio de 2020 e traz as perspectivas para 2021

 

Embora o desempenho do comércio nos últimos meses tenha sido positivo, no ano, deve haver retração nas vendas de 5,6%, segundo projeção da Fecomércio-BA. O faturamento do varejo estimado para o acumulado de 2020 é de 95,2 bilhões e será o pior resultado dos últimos dez anos. Em relação ao ano passado, a queda das vendas na Bahia será de 5,6 bilhões de reais.

Até o final do ano passado, o comércio da Bahia estava num ritmo bastante favorável. O último trimestre de 2019, por exemplo, registrou crescimento de 4,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior. No entanto, ao iniciar 2020, o desempenho trocou de lado e nos dois primeiros meses houve queda no faturamento de 4,4%. Nesse ponto tem uma questão de calendário no qual o carnaval ocorreu em fevereiro neste ano de 2020, mas, em 2019, aconteceu em março.

“Seria natural, portanto, o mês de março cheio, sem feriado, apresentar um desempenho positivo em relação ao mesmo mês de 2019, quando ocorreu a festividade. O problema é que a pandemia veio exatamente nesse terceiro mês, com restrição da atividade econômica e com o isolamento social”, analisa o consultor econômico da Fecomércio-BA, Guilherme Dietze.

Os números da pesquisa elaborada da Fecomércio-BA, com base nos dados do IBGE, mostraram forte retração de 17,6% em março, e logo no mês seguinte o varejo despenca 40,9%, sendo então o fundo do poço para o setor, com o menor faturamento mensal da série iniciada em 2011, de R$ 4,6 bilhões.

O mês de maio, mesmo com os consumidores e empresas com um pouco mais de conhecimento sobre o coronavírus, também registrou forte queda de 31,2%. Os setores que tinha alguma condição de segurar um pouco o desempenho negativo geral eram os supermercados e as farmácias que ficaram abertas, por serem atividades essenciais.

Guilherme Dietze contabiliza: “só para se ter uma ideia do dano que a crise do coronavírus provocou no emprego, foram fechadas 71,3 mil vagas formais na economia baiana, e o comércio ficou com resultado negativo de quase 20 mil. O efeito imediato dessa estatística é a redução do consumo no comércio”.

Segundo o economista, o fundamental para que houvesse uma recuperação mais rápida do varejo baiano foi a injeção do auxílio emergencial que começou em abril e maio com os R$ 600. Foram destinados, até outubro, cerca de R$ 17 bilhões para a Bahia, beneficiando 5,8 milhões de cidadãos do Estado.

Nitidamente com a reabertura gradual da economia, mais a injeção de renda, o consumo voltou não somente nas atividades básicas, mas também em setores como o de eletroeletrônicos, móveis e decoração e materiais de construção. “Tanto que no terceiro trimestre esses setores registraram crescimento de 37,2% em relação ao ano passado, que já havia sido positivo. As famílias aproveitaram o auxílio emergencial para fazer pequenas reformas em suas casas, compraram também computadores e celulares para realizar o trabalho e o ensino domiciliar. Além, é claro, de aparelhos de cozinha e móveis, uma vez que o tempo de permanência em casa aumentou”, explica Guilherme Dietze.

Os varejistas recuperaram a confiança com a abertura das lojas e a possibilidade de voltar a faturar. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC), de Salvador, por exemplo, cresceu 73% entre os meses de junho e novembro. As contratações foram retomadas e, de julho a outubro, o comércio criou 9,2 mil vagas formais, e no geral do estado, 46 mil.

O economista explica ainda que a geração de emprego se torna importante, pois desde setembro que o auxílio emergencial foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 e tendo seu término em dezembro próximo. “Ou seja, as pessoas gradativamente estão indo ao consumo com a segurança do seu emprego e não mais através dos programas de transferência de renda, o que torna o consumo mais sustentável de longo prazo”.

Para os últimos meses do ano, o ritmo deve ser menor, por conta da redução do auxílio e de uma injeção menor do 13º salário, em decorrência do contingente menor de empregados. Tanto que a Fecomércio-BA estimou o crescimento de 2,4% para o mês de dezembro, principal período para o comércio pelo Natal.

“E o que chama a atenção neste ano é que o desempenho está se dando de forma assimétrica. Enquanto no ano de 2019, a diferença entre o melhor e pior resultado foi de 26 pontos percentuais (9% o maior; -17% o menor), neste ano a projeção é que espaço aumente para 51 pontos percentuais, com a projeção de crescimento no ano de 19% para o setor de materiais de construção e de -32% do segmento de vestuário, tecidos e calçados”, avalia Dietze.

Desta forma, mesmo com o cenário geral mais favorável, ainda tem setores que não conseguiram se recuperar da pandemia e que ainda têm severos desafios pela frente como é o caso de veículos e de vestuário.

E são esses que estão puxando o desempenho geral do ano para baixo, com a perspectiva de retração de 5,6%. “Porém, claramente pode-se comemorar o resultado mesmo que seja negativo. Isso porque as projeções que eram feitas no início da pandemia davam conta de um quadro extremamente crítico, de uma possível queda no ano próxima a 20%”, afirma o assessor econômico da Fecomércio-BA.

Esse número bate com o exercício que a Fecomércio-BA fez sobre a importância do auxílio emergencial para o comercio baiano na contenção da crise. Se não houvesse o benefício, a retração no ano seria próxima a 22%.

Para 2021, a Fecomércio-BA estima um crescimento de 4%, com o faturamento indo a R$ 99 bilhões, portanto, ainda abaixo no nível de 2019, pré-pandemia.

Guilherme Dietze ainda chama atenção: o fim do auxílio emergencial, a pressão dos preços dos alimentos, as contas de início de ano e o desemprego se recuperando de forma gradual, são fatores que limitam o consumo no início do ano. Além disso, há dúvidas sobre o impacto da segunda onda, quando a vacina será aplicada de forma ampla e em relação as questões fiscais do governo, pois não se cumprir a regra do teto dos gastos, pode levar a um aumento dos juros e inflação, prejudicando toda a recuperação.